Sobre dados no mundo digital: a fábula das laranjas

James Görgen

James Görgen

Dada a essencialidade de seu uso para as mais diversas aplicações, no reino do digital convencionou-se dizer que os dados são o novo petróleo. Uma commodity fundante e fundamental para várias outras atividades econômicas e sociais. Mas, como toda a metáfora, esta se mostrou limitada para a amplitude do papel que os dados e seus derivados exercem na sociedade digital atual. Por isso, a ideia aqui é testar uma outra analogia. Uma que caiba melhor em todos os campos da agenda digital com seus impactos positivos e negativos.

Então, façamos um exercício contando uma história. Imagine que você possui alguns pés de laranja no seu quintal que cultiva desde quando nasceu. Deles, todos os dias nasce um tipo especial de laranja. Ela pode ser usada e reutilizada ao infinito para os demais devidos fins. Você cresceu admirando a beleza destas frutas. Estudou anos para cuidar da sua produção com esmero e aprendeu a fazer diversos produtos com ela. Sua receita mais famosa é uma torta de laranja muito vistosa e saborosa. Por anos, porém, você usou estas laranjas para seu próprio consumo e suas características eram compartilhadas apenas com sua família e alguns amigos mais chegados. Às vezes, com o médico ou com o gerente do seu banco. Principalmente, nunca ganhou dinheiro com elas. Assim como toda a humanidade, suas laranjas eram seu tesouro privado.

Um dia um amigo lhe disse que uma empresa lhe disse que suas laranjas e suas tortas eram bonitas demais para ficarem guardadas em casa e que poderia ajudar a expô-las para que outras pessoas também as pudessem admirá-las. Ao mesmo tempo, você conheceria as frutas de outros, poderia trocar receitas de tortas, receber dicas e conversar sobre outros assuntos. Esta empresa coletava suas laranjas para você, tratava-as com cuidado, as organizava, armazenava em um galpão e lhe dava uma vitrine vistosa de forma gratuita para você mostrar para todos como sua produção de laranjas doces e suculentas gerava tortas lindas. Ou mousses, ou suco.

A única coisa que você precisava fazer era comprar um dispositivo para a coleta das frutas e colocá-las na rede de distribuição que a empresa alugava para transportá-las até o galpão. O mais interessante era que, se quisesse, podia passar o dia inteiro fazendo tortas e colocando-as na vitrine ou vendo as laranjas e os produtos feitos pelos outros com suas espécies sempre um pouco diferentes. Ao usar a estrutura da empresa você permitia também que ela empacotasse suas frutas e tortas e vendesse uma cópia para outras empresas e pessoas fazerem os seus produtos que tinham a sua cara. Em geral, o conhecimento profundo de seu pomar fazia com que a empresa aprendesse exatamente que tipo de laranja era a sua preferida e podia recomendar produtos que o ajudavam a continuar produzindo laranjas e fazendo tortas. Você também podia usar um sistema da empresa para procurar aquilo que lhe interessava. Só era preciso deixar algumas cópias de laranjas como recompensa pelo uso do serviço. Se você pagasse para a empresa, sua vitrine podia ganhar mais destaque que a de seus vizinhos nos galpões.

Aos poucos, você foi gostando tanto daquela atividade, na verdade estava viciado na sua vitrine e na alheia, que passava várias horas por dia andando lá dentro sem perceber. Este encantamento o impedia de notar alguns detalhes. Estas duas camadas da estrutura tinham seu acesso e as regras definidas pela própria empresa; a polícia só entrava com mandado judicial; os governos, a não ser o de onde ficava a sede da empresa, não sabiam o que se passava lá dentro com suas laranjas e, muito menos, conseguiam mensurar o movimento de frutas e tortas que iam de um lado para o outro de forma praticamente imperceptível. Era diferente das demais atividades que aconteciam em seu país, mas não era nada demais, afinal você podia retirar suas frutas da vitrine e sair de lá a hora em que quisesse. Mas todos os seus amigos e familiares estavam lá com suas laranjas. Seu chefe e a empresa em que você trabalhava também. Além do mais, quase não havia opções para migrar sua vitrine. E era tudo tão legal que ir para um galpão menor, menos badalado, não tinha a menor graça. Você também podia usar aquele espaço para ganhar algum dinheiro exibindo suas laranjas e tortas. Quanto mais chamasse atenção para sua vitrina, mais ganhava. Era bom demais para ser verdade. E, então, o mundo convencionou que este ecossistema gravitaria a parte da maioria das regras que valiam para todos os demais.

Passaram-se 20 anos, e algumas coisas foram mudando. Como os galpões estavam interligados, havia bilhões de vitrines de outras pessoas de diversos países usando o mesmo espaço para exibir suas laranjas e produtos. Como estes espaços estavam abarrotados de gente e cada um pensava que suas tortas eram melhores que as demais, ocorriam alguns excessos de parte a parte, incluindo brigas e discussões que criavam grupos mais fechados de donos de laranjas e fazedores de tortas que pensavam parecido. Pessoas não tão legais assim começaram a criar vitrinas com laranjas e tortas falsas para aplicar golpes e promover ideias tóxicas e nocivas. Algumas crianças e adolescentes começaram a adoecer e até se machucar por achar que suas laranjas e tortas não eram tão bonitas quanto a dos colegas da escola. Estes galpões lotados começaram a consumir muita energia elétrica para iluminar a vitrine em um volume tal que o abastecimento de casas e prédios ficou comprometido. O processamento das cópias de laranjas também queimava muito carbono, o que prejudicava o meio ambiente. Aos poucos também, sua geladeira e seu carro começaram a produzir laranjas que você nem sabia para onde iam, agravando ainda mais os problemas.

Tudo ganhou uma escala muito maior, e estas poucas empresas começaram também a controlar parte da rede de distribuição, criando regras e padrões para definir também como os galpões se interligavam e por onde as laranjas circulavam ao redor do globo. Para completar, a empresa inventou uma tecnologia que fazia tortas automáticas para você coletando e processando as laranjas e tortas de milhões de outras pessoas, empresas e dispositivos. Tecnologia que foi usada, inclusive, para fazer armas. Neste tempo todo, a empresa acumulou tantas cópias de laranjas e tortas que passou a valer muito mais que qualquer empresa de outros segmentos. Seus donos, ficaram bilionários. Não remuneravam os produtores das laranjas, mas recebiam pelo comércio das cópias e das tortas.

Muita coisa mudou menos uma: quase a totalidade dos governos continuavam não podendo entrar nestes galpões ou participar da organização e regulação destes espaços. Na verdade, entravam apenas se fosse para criar suas próprias vitrinas e expor os serviços que ofereciam com base nas laranjas e tortas de seus cidadãos. E pagar caro pela promoção de seus serviços. O que faziam de bom grado.

Quando a situação ficou insustentável em diversos aspectos, os governos decidiram intervir. Criaram regras próprias e tributações que faziam as empresas começarem a contribuir e serem responsabilizadas por seus erros como qualquer outra pessoa ou instituição. Ações na Justiça começaram a surgir com gente que estava descontente com as regras criadas dentro dos galpões. Países passaram a querer monitorar o fluxo das laranjas e tributar a venda de alguns tipos de tortas. Outras nações decidiram criar sua própria infraestrutura de galpões e redes de distribuição. Pessoas comuns começaram a cobrar pelo uso e reuso de suas laranjas e pelo consumo de suas tortas.

O interessante foi a reação das empresas quando isso começou a acontecer. Em todos estes anos, elas guardaram duas cartas na manga que souberam usar no momento em que as coisas começaram a ficar mais sensíveis. Na relação com os donos de vitrines, e até com políticos e organizações sociais, elas tinham mostrado tão pouco de sua forma de fazer cópias de laranjas, de onde as armazenavam e como cobravam por tudo que ofereciam, que não havia informação suficiente sequer para poder responsabilizá-las por eventuais excessos. Mais do que isso, elas desenvolveram o discurso de que controlar o fluxo de laranjas ou passar a fiscalizar um galpão era querer acabar com todo aquele mundo perfeito onde as pessoas tinham o direito de expor suas laranjas e tortas de forma livre e ter acesso às vitrines que mais gostavam de acompanhar sem custo. Então, não foi preciso muito esforço para que boa parte dos produtores de laranjas do mundo se revoltassem e ficassem ao lado das empresas diante de qualquer tentativa de criação de regras que não fossem aquelas determinadas pelo próprio dono do galpão e organizador das vitrines.

Mesmo assim, alguns produtores de laranjas passaram a apoiar estas ações de governos entendendo que este punhado de menos de dez empresas tinha ido longe demais. Foi aí que elas começaram a jogar mais duro. Passaram a financiar entidades e pessoas que pudessem reforçar o discurso contra os governos acusando-os de quererem quebrar a rede de distrbuição. Alguns destes donos dos maiores galpões elegeram presidentes e fazem lobby nos parlamentos para aprovar leis que mantenham a realidade como há duas décadas. Mesmo assim, alguns produtores de laranjas e tortas foram construindo seus próprios galpões e vitrines. Outros, se dedicaram a fazer receitas que todos pudessem alterar e adicionar ingredientes. Aos poucos, o status quo do mundo das laranjas começa a ser modificado. Mas os maiores galpões continuam intactos e se expandindo.

Como se vê, alterando a palavra laranja para dado e torta para informação ou conteúdo, você entendeu tudo o que esta fábula tinha a dizer no caso do mundo digital até o ponto em que nos encontramos. Agora é agir para que isso se altere e que se coloque mais luz sobre todo este ecossistema a fim de que possamos cultivar e trocar nossas laranjas e tortas da forma que quisermos.